SARAU PLURAL 37 

TUPI OR NOT TUPI

Theodoro de Bry, 1592ZOOM
Antropofagia
  
ARTE PLURAL GALERIA
Rua da Moeda, 140 
Bairro do Recife 
Apresenta
27 de Agosto de 2013 às 19:00 
  Sarau Plural 37    -   TUPI OR NOT TUPI
com Homero Fonseca, Marco Polo e Geraldo Maia.
 CONVIDADO ESPECIAL:
 ROBERTO HARROP, sociólogo, professor, pesquisador da língua e cultura tupi.
 Textos e poemas: Osvald de Andrade, Mário de Andrade, Gonçalves Dias, Jaime Llulu Manchineri, Raul Bopp, Kent Nerburn e Geraldo Lapenda.    
 Trilha sonora: Augusto Calheiros/René Bittencourt, Caetano Veloso, Djavan, Gilberto Gil, Beto Guedes e Villa-Lobos.
Pena que a divulgação do evento não nos chegou, mas fica aqui marcada mais essa faceta
Xe remirekó
Geraldo Lapenda (24 de dezembro de 1952)

Aîkuab kuñataĩ:
iporang itybytaba,
ixybá, sobá, i'aba,
inambí, sesá, itĩ.
Iporang ijurú, sãîa,
sendybá, sembé-piranga
(osekýîbae xe anga
xe resá moesã-moesãîa).
Iporang îatukupé,
ijyké, sendybangá,
ijybá, ipó, îatûá,
îatiyba, ikama bé.
Iporang sygé, sumby,
îanagûyra, setymã,
ipytá, sendypyã,
iku'á, i'uba, ipy.
Iporangatú îakanga,
iporangatú seté,
pakatú seté sosé
iporangaté i'anga.
A'é xe remirekó;
Clementina sé-poranga;
pá i'anga opá xe'anga,
xe rekó opá sekó.
— x —

Clementín, oró aûsub
moraûsubeté pupé;
xe raûsub abé jepé;
tîaîoang-andú-andub.

Conheço uma menina:
são belos suas sobrancelhas,
sua testa, seu rosto, seus cabelos,
suas orelhas, seus olhos, seu nariz.

São belos sua boca, seus dentes,
seu queixo, seus lábios vermelhos
(que atraem minha alma
ficando a alegrar meus olhos).

São belos suas costas,
seu lado, seus cotovelos,
seus braços, suas mãos, sua nuca,
seus ombros, seus seios também.

São belos seu ventre, seus quadris,
suas nádegas, suas pernas,
seus calcanhares, seus joelhos,
sua cintura, suas coxas, seus pés.
É bem bela sua cabeça,
é bem belo seu corpo,
acima de todo seu corpo
é belíssima sua alma.

Essa é minha esposa;
Clementina é seu belo nome;
toda sua alma é toda minha alma,
todo meu proceder é seu proceder.
— x —
Clementina, eu te amo
com amor verdadeiro;
ama-me também tu;
que fiquemos a sentir a alma um do outro.


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Biblioteca Digital Curt Nimuendajú

livros e artigos sobre línguas sul-americanas

Coleção Geraldo Lapenda
lapenda.JPG
Geraldo Lapenda entrevistando o Fulniô Lourenço (década de 1950). Foto: acervo familiar (cortesia de Marcelo Lapenda)

Sobre a coleção:

Filólogo, Geraldo Lapenda (1925-2004) foi um pioneiro no estudo científico das línguas indígenas do nordeste brasileiro, sendo o autor de Estrutura da língua Iatê (1968, 2005), ainda hoje obra de referência obrigatória sobre esta língua. A Coleção Geraldo Lapenda da Biblioteca Digital Curt Nimuendaju inclui artigos raros e de difícil acesso, digitalizados a partir de itens da biblioteca pessoal do autor.
Além de trabalhos sobre línguas mais conhecidas (Yatê e Tupinambá), a Coleção inclui o artigo 'O dialeto Xucuru' (possivelmente, a mais importante fonte publicada sobre esta língua extinta), em que Lapenda sistematiza e analisa dados coletados por dois funcionários do SPI (e conferidos posteriormente pelo próprio Lapenda). O artigo ilustra bem a acuidade analítica do autor; apesar das limitações dos dados (a língua então já não contava com falantes fluentes), Lapenda oferece uma análise bastante perspicaz, lidando com as diferentes influências lexicais detectáveis (principalmente Tupinambá e Yatê), o uso cotidiano do que restava da língua (caracterizado pelo uso de vocábulos indígenas com a sintaxe do português), etc. O artigo inclui anotações manuscritas do autor, esclarecendo aspectos da descrição e das circunstâncias da coleta dos dados. Trata-se, enfim, de contribuição essencial para a compreensão da complexa situação etnográfica em que se inserem os Xukurú.

LAPENDA, Geraldo Calábria. 1953. Etimologia da palavra Tupã. Boletim Universitário (Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Pernambuco), 15 de junho de 1953, p. 3-7. Recife. 
http://biblio.etnolinguistica.org/lapenda-1953-etimologia

LAPENDA, Geraldo Calábria. 1962. O dialecto Xucuru. Doxa (Revista Oficial do Departamento de Cultura do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia de Pernambuco da Universidade do Recife), ano X, n. 10, p. 11-23. 

LAPENDA, Geraldo Calábria. 1965. Perfil da lingua yathê. Arquivos 21/47, p. 54-72. Recife: Secretaria de Educação e Cultura (Prefeitura Municipal do Recife)/Imprensa Universitária.

PINTO, Estêvão. 1955. Estórias e Lendas Indígenas. Secção E (História e Geografia), 15. Recife: Faculdade de Filosofia de Pernambuco, Universidade do Recife. [A tradução literal dos textos foi feita com a colaboração do linguista Geraldo Lapenda]

JOSÉ LOURENÇO DE LIMA, "Professor Emérito" da Universidade Federal de Pernambuco

APRESENTAÇÃO

     Mais do que merecida, a concessão do título de Professor Emérito da UFPE ao mestre José Lourenço de Lima foi antes o pagamento de uma dívida, foi o reconhecimento, pela comunidade universitária, de tudo quanto ele doou a todos na grande parte de sua vida dedicada ao magistério. Através desse título, Lourenço retorna ao seio da Universidade, da qual se desligara no momento de sua aposentadoria: e quem saiu ganhando com esse retorno foi a UFPE.
     O Prof. José Lourenço, como em geral todos os egressos de Seminário (das "priscas" eras, naturalmente), enveredou-se pelo ensino da língua latina e, obviamente, da língua portuguesa, e daí partiu para a filologia românica, pois dispunha - e ainda dispõe - de farto cabedal de conhecimento das línguas francesa, espanhola e italiana.
     A cultura latina teve nele seu paladino; foi ele responsável pela sua transmissão, não a uma, mas a duas ou três - e quiça quatro - gerações de jovens de nosso Estado; transmissão essa, feita através de muita verve e entusiasmo, em linguagem fácil, espontânea, rica e escorreita: ele sabe dizer-nos as coisas, e sabe como dizê-las, isto é, possui o dom da palavra em seu sentido mais expressivo.
     Tão grande continua seu amor pelo latim, que não deixa passar qualquer oportunidade sem fazer citações várias nessa língua, embora na presente arenga (sem a conotação de aranzel de que inocentemente se queixou, em aparte, seu neto Alexandre) tenha parecido preferir ao latim a língua de Bossuet. Firme e convicto, permanece fiel à língua dos Césares, hoje tão espezinhada: pertence também ele à pertinaz hoste dos que são chamados por Virgílio rari nantes in gurgite vasto.
     Na presente arenga, Lourenço traça, com o donaire de que é dotado, o perfil histórico do querido latim, em sua longa metamorfose através dos séculos, até desabrochar nas línguas neolatinas. E o mestre se lhe considera fiel mediante a fidelidade igualmente consagrada a sua continuadora: a língua portuguesa; o latim e o português são, pois, suas grã-senhoras, por quem vive apaixonado.
     O auditório, repleto, parecia extasiado, e os semblantes dos ouvintes transpareciam o interesse com que proveitosamente lhe acompanhavam as palavras cativantes. A simples arenga se transformara em uma aula magistral: um mestre discursava.
Recife, 10 de março de 1984
Prof. Geraldo Calábria Lapenda

In: NEGROMONTE, Álvaro; LIMA, José Lourenço de. José Lourenço de Lima "Professor Emérito" da Universidade Federal de Pernambuco. Coleção Espírito Universitário, v. 13. Recife: Universitária, 1984, p. 9-10.

Grandpa

Where ever you are, I want you to know that I miss you a lot.
I still don't understand why you need to go so soon, but, if God wanted it, is what need to be!!
Please, look to me and guide me to the correct way and give me a sign when I do something that you don't like or that is not the right thing to do.
I want you to know that I love you more than everything and I always did.
I need that you apologize me for the things that I did and hurt you or you didn't like.
With love
your granddaughter

Marcella

Citações

"Não se pode compreender um tecnicismo sem humanismo, e o humanista sem ter ao lado o tecnicista, e sinto-me levado a condenar a ênfase exagerada que muitos dão, cada vez mais, ao tecnicismo, em detrimento de tudo o que for da área cultural ou de humanidades, transformando os homens
em simples robôs sem coração e sem sentimentos"

"As grandes realizações, muitíssimas vezes, são a soma de atos insignificantes"


"A vida é um contínuo e sucessivo decidir-se entre diversas possibilidades, levando-nos normalmente a buscar um sentido axiológico na escolha da alternativa adequada".


"Durante a realização de nossos trabalhos, a confiança em nós mesmos aumentará quando aliada à confinaça em todos os que, em nosso redor, procuram apoiar-nos".


"Quem quer um pé-de-dinheiro
acha somente atrapalho,
pois tal pé nunca dá frutos,
só dá frutos o trabalho
".

A IMPORTÂNCIA DE GERALDO LAPENDA PARA O MUNDO LINGÜÍSTICO

JORNAL PONTO DE ENCONTRO

José Luiz de Moura

Durante muitos anos, fui integrante do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, na condição de cronista esportivo ao lado de Viriato Rodrigues, então responsável pelas páginas esportivas do "Mais Antigo" da América Latina.
Ao passar para o DIÁRIO em 1953, fiquei até o término da FOLHA DA MANHÃ como responsável pela sua área de esportes amadores, sob o pseudônimo de Ricardo Azevedo, tendo para tanto o consentimento do então secretário do DP, Antônio Camelo.
Acontece que após o encerramento da atividade da FOLHA, eu continuava no Jornal Associado, porém ajudando Luiz Andrade (Ayala) no "pente fino" e Paulo do Couto Malta, na página social.
Pois bem, meu cumprade Lula Carlos, filho do grande Silvino Lopes, com quem tive ainda o privilégio de vê-lo no "batente" da FOLHA, convidou-me para colaborar no CORREIO DO POVO, de Edgard Bezerra Leite, sem prejuízo de minhas atividades no DIÁRIO DE PERNAMBUCO, sendo a minha colaboração na página esportiva e às vezes no suplemento literário.
Numa dessas oportunidades, publiquei uma reportagem de página inteira sobre o trabalho "Estrutura da Línbgua Iatê", de autoria do professor Geraldo Calábria Lapenda, ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, considerado esse trabalho de Geraldo um marco no trajeto literário do País, tamanha a importância de profundidade alcançada no mundo lingüístico.
Agora que chega às minhas mãos o livro "GERALDO CALÁBRIA LAPENDA: MAIS DO QUE UM RÉQUIEM!", de autoria de Marcelo do Rêgo Barros Lapenda, filho de Geraldo Lapenda e de Clementina do Rêgo Barros Lapenda, meu afilhado de batismo e de minha esposa Isa, com muita satisfação, desperta-me a figura de Geraldo Lapenda, inegavelmente um ser humano do mais alto nível e uma das maiores culturas que conheci e de resto todo mundo conheceu.
Primo legítimo de minha esposa Isa, conheci Geraldo desde os tempos de Nazaré da Mata. "Bambino", como também era conhecido pelos seus familiares, era um "raio" de conhecimentos e capacidade. Seu desembaraço lingüístico deixava quem o ouvisse encantado e com vontade de ouvi-lo mais e mais. E nesse circuito de ouvinte fiz parte muito tempo, por conta da nossa convivência facilitada pela sua amizade que era também alicerçada pela família Rêgo Barros de sua esposa Clementina, pertencente ao mesmo Rêgo Barros de minha mãe, Maria Amélia, salientando ainda se tratar de irmã de Joaquim do Rêgo Barros, meu saudoso amigo Juquinha, esposo de Inês Rabelo, filha do renomado educador Dácio Rabelo.
O trabalho de Marcelo oferece em detalhes quem foi o saudoso Geraldo Lapenda, orgulho para os seus familiares e amigos, tamanha a sua grandeza, permitindo a quem tiver oportunidade de lê os seus textos, de conhecer uma figura contemporânea do maior valor intelectual, digna de ser seguida por qualquer ser humano. Eu mesmo, seu cumpadre, seu amigo, seu admirador, fiquei lamentando não ter tido oportunidade de continuar a aproveitar a sua convivência por mais tempo, tendo em vista a sua mudança do Rosarinho para Boa Viagem. Agora só me resta lamentar o tempo irrecuperável que perdi. É aquela história que sempre se repete: eu era feliz e não sabia.

Biblioteca Municipal de Carpina


No dia 28 de junho de 2006, foi inaugurada a "Biblioteca Pública Municipal Geraldo Lapenda", no município de Carpina/PE e, na ocasião, sua neta Nathália, em nome da família, apresentou o seguinte texto como agradecimento pela homenagem:




Senhoras e Senhores,

Sem livros, não há educação; não se faz uma nação!

Para um educador, livros são sua maior riqueza,
e maior ainda a alegria de poder compartilhar,
acrescentar.

Uma biblioteca não é apenas estante com livros,
é o início de um sonho maior,
a felicidade de quem dela pode dispor
e, acreditamos, o orgulho de quem a fez:
a Prefeitura de Carpina e o Rotary Club.

Mas nós estamos muito mais felizes,
em podermos contribuir com alguns poucos tijolos do saber para esta casa
e pela honra da homenagem prestada com o nome de vovô.

Agradecemos a todo o povo de Carpina,
pelo seu prefeito Manoel Botafogo,
a Secretária de Educação, Ana Cláudia, e, principalmente, a professora Judite Botafogo,
que tomou para si esse projeto hoje realizado.

Por fim, como sempre na vida de vovô,
mais uma vez vemos que nada é por acaso.
afinal, apesar de nascido em Nazaré da Mata, aqui ao lado,
torcia por um time de futebol do Rio de Janeiro, o Botafogo.

Obrigada!

Comentários sobre o livro - José Carlos Poroca

À Família Lapenda.
Caríssimos, acuso o recebimento do livro "Geraldo Calábria Lapenda - Mais do que um Réquiem!", que possibilitou poder conhecer mais um pouco a história do inesquecível Mestre GERALDO LAPENDA. Confesso que fiquei satisfeito com a surpresa; mas confesso também que, além da satisfação, bateu enorme saudade do período em que fui aluno do Colégio Estadual de Pernambuco - local de boas,importantes e inesquecíveis recordações. O momento é oportuno para registrar que tenho orgulho de ser ex-aluno daquele Colégio. E tenho muito orgulho de ter tido o privilégio da convivência com mestres do quilate de Geraldo Lapenda, Hilton Sette, Manoel Correia de Andrade, Adauto Pontes e Lucilo Varejão Filho, dentre outros, que muito contribuíram para a minha formação pessoal e profissional. Agradeço, sensibilizado, a atenção dispensada. Cordiais Saudações, José Carlos Poroca P.S. Sobre o episódio da minha expulsão da sala de aula vale ressaltar que, à época, contava com pouco mais de 10 anos de idade, era o mais novo da turma. Imaturo, estava brincando durante a aula, quando o professor Geraldo Lapenda, de forma educada e firme, convidou-me a "tomar um ar" fora daquele ambiente. Quando o reencontrei por ocasião da reinauguração do Ginásio Pernambucano - presumo que em 2002 - pensei em pedir desculpas pelo episódio (acho que ele nem lembrava); fui cumprimentá-lo e, por algum motivo, o pedido não ocorreu. Se não pude fazê-lo naquela ocasião, fica aqui o registro ainda que fora de hora.



* गएरअलडीओ * लअपएनडीअ *

José Carlos L. Poroca
(Advogado)
Publicado em 21.01.2005

Antes do internamento, o comitê informa que "Bubalus bubalu" não tem nada a ver com o mambo cubano. Foi o primeiro búfalo clonado na China, sobrevivente de poucas horas. Também informa que este texto foi feito em homenagem ao mestre Geraldo Lapenda, que um dia me expulsou merecidamente da sala de aula. Paciente, ensinou aos seus pupilos que alface não é fruta, pitomba não é sobremesa, João se escreve com jota, geralmente com gê!

Comentários sobre o livro - Dena e Corrêa

"Sorrindo o homem duplica as capacidades que possui" (Provérbio Árabe)

Anízia, Marcelo e filhas
Agradecemos os votos de Feliz Natal e desejamos que este ano seja de muitas graças. Obrigada também por "MAIS DO QUE UM RÉQUIEM", mostrando de uma maneira inteligente toda a trajetória da vida de Geraldo, que com certeza está desfrutando das belezas da outra vida com a mesma competência que lhe foi peculiar, tendo Jesus como modelo.
Beijos dos tios Dena e Corrêa

Comentários sobre o livro - Nilza Menezes

Clementina minha amiga:
Fiquei contentíssima com o presente que recebí neste Natal: "Geraldo Calábria Lapenda mais que um réquiem!" E mais feliz me sentí quando na árvore genealógica encontrei o meu parentesco com o professor Lapenda, tão estimado e admirado por nós. Sou Bezerra de Menezes de Carpina e Paudalho e com certeza hoje, faço questão de dizer meu parente professor Geraldo Lapenda. Natal é tempo apropriado para reativar e reavivar amizades e a de vocês é sem dúvida uma das maiores. Recordo com saudade e felicidade o tempo que convivemos com vocês.
Marcelo foi muito feliz no que escreveu. Professor Geraldo era tudo isto e muito mais. Deixou saudades e um lugar no céu com certeza ele ocupou, para de lá velar por nós. Fui sua aluna no colégio das Damas em 1955 e ele ficou no meu coração e é inesquecível. O que sei devo a ele que me ensinou Português com muita propriedade.
Vamos cultivar a nossa amizade e que seja para sempre nossas lembranças.
Professor Lapenda era um iluminado!
Sou a amiga que carinhosamente com João José abraça todos vocês.
Nilza Menezes

Comentários sobre o livro - Gilvando Rios

Estimado Marcelo Lapenda,
Entre consternado e surpreso soube pelo seu comovente livro-depoimento do falecimento do Professor Geraldo Lapenda.
Tive a chance de ser aluno de seu pai tanto no Seminário de Olinda como na antiga FAFIRE. Muitas e muitas vezes freqüentei a casa da rua Teles Júnior, 111, no Rosarinho e sempre fui recebido gentilmente pelo professor e a srª sua mãe, isso no final dos anos 50, início dos 60. O Prof. Lapenda sempre foi uma referência para mim: sua erudição, seu espírito de pesquisa e sobretudo sua simpatia, seu sorriso acolhedor e sempre prestativo. Um professor cujo perfil procuro viver, não mais na área das letras, mas das ciências sociais, pois professor hoje também sou.
Marcelo, o Prof. Lapenda, imagino, deve ter sido para vocês um pai amantíssimo, ele não partiu, está entre nós como um anjo de bondade com o seu eterno sorriso. Pelo pai que você, Ana Lúcia e Marcos José (que conheci pequeninos) tiveram, um Feliz Natal para vocês e Dª Clementina e um 2006 pleno de realizações como fruto da trajetória de Geraldo Lapenda.
Gilvando Rios

Comentários sobre o livro - Fernando Araújo

Marcelo, Ficou muito bonito e importante o trabalho que você produziu em torno da obra de seu pai - obra e vida.
Parabéns.
Fernando Araújo
28.12.2005

Comentários sobre o livro - Elói

Meu caro amigo Marcelo Lapenda, muito obrigado pelo seu livro, uma preciosa lembrança do seu querido Papai,o Professor Doutor Geraldo Lapenda, que já se encontra na Casa do Pai para onde queremos ir também, pois somos seres contingentes. O saudoso Professor Doutor Geraldo Lapenda foi sempre o meu Professor por quem eu tinha muito apreço, e sempre o meu Amigo no sentido estrito do termo. Muito obrigado por sua gentileza.
Elói, esposa e filha
Dez/2005

Comentários sobre o livro - Joaquim Correia de Carvalho Jr.

Para Clementina e filhos:
Recebi o livro sobre Geraldo Lapenda. É uma boa lembrança daquele que, em vida, como bom cristão, procurou semear o bem. Eu próprio tive o privilégio de ter a sua ajuda na tradução de um texto em latim, fato por mim referido no pequeno livro "Carta a um jovem abrazado", que, à época, enviei a vocês.
Recebam todos o nosso abraço e a reafirmação de uma sólida, ainda que distante, amizade.
Joaquim Correia de Carvalho Jr.
29/12/2005.

Comentários sobre o livro - Elvite da Assunção

Prezadíssima família LAPENDA:
Recebemos o seu gentil convite para homenagear o nosso inesquecível GERALDO, no dia 06 de dezembro.
Colocamos o convite num lugar bem visível para não passar desapercebido. Motivos superiores me impediram de comparecer. Fiquei triste, muito triste. Além da Amizade que nos uniu por muitos anos, ele, GERALDO LAPENDA, era o meu "tira-dúvidas de Latim". Nem queiram saber como ele me faz falta.
GERALDO, além de ser um cavalheiro perfeito e de fino trato, era de uma inteligência brilhante, professor de destaque e completo como não passará outro igual pelas cátedras da UFPE. Todos os alunos o admiravam e, nós, os professores do Departamento de Letras, o reverenciávamos. Ele era o modelo de todos nós.
Fiquei triste por não poder comparecer à homenagem que lhe foi prestada. Deve ter sido muito bonita. A ele todo o meu carinho, admiração, louvor, aplausos, respeito e... saudades.
Prof. Elvite da Assunção e família
07 de dezembro de 2005

Comentários sobre o livro - Juracy Andrade



JURACY ANDRADE
(Jornalista - juracy@jc.com.br)
Publicado em 14.01.2006


(.......................................................................................)

PS – Recebi, e agradeço muito, o livro de Marcelo Lapenda sobre a excelente figura humana e acadêmica que foi seu pai. O livro é Geraldo Calábria Lapenda – Mais do que um réquiem (Editora Baraúna). Numa boa prosa, conta a trajetória de um homem que destacou-se pela decência, a cordialidade, o humanismo, a grande sabença em línguas.

Comentários sobre o livro - Jeisane

Oi Marcelo
Obrigada pelo livro. Achei uma bonita homenagem ao seu pai e li quase a metade ontem mesmo. Fiquei muito tocada com o conteudo principalmente por viver tao longe dos nossos lacos familiares e da nossa cultura. Sua dedicacao em colher toda as informacoes e compilar o livro em tao curto espaco de tempo eh mais uma comprovacao que ele realmente deixou marcas positivas por onde passou.
Parabens pela perseveranca e a coragem de expor seu afeto filial publicamente, sao ambas qualidades raras.
Tudo de bom!
Jeisane

80 Anos

Culminando as comemorações pelos 80 Anos, que Papai tanto desejava festejar mas quis o destino encontrar-se entre nós apenas "em uma chama que não se apaga", no dia 6 de dezembro de 2005 foi reunida toda a família e alguns dos amigos para o celebrarmos. Na ocasião, o rascunho que fiz sobre ele, que na verdade entendi ser "mais do que um réquiem!", será entregue aos presentes como uma pequena lembrança dele e, sobretudo, para que cada um acrescente um novo capítulo ao que considero ser uma história sem fim...


o livro "Geraldo Lapenda: mais do que um réquiem"







Várias pessoas falaram na ocasião, mas dentre elas, sua neta Nathália apresentou o seguinte texto:

Vovô,

Você queria muito festejar seus 80
anos,
estar aqui hoje
conosco!
E não faltou.
Está, e sempre estará,
presente em cada
um de nós,
em nossos corações.

Um pouco de cada um de nós
está
em você,
que, lá do alto,
como uma estrela a brilhar,
sempre estará
nos guiando.


E,
se um vento forte me apanhar,
nunca fugirei da
ventania,
ou da chuva
que rodopia,
pois sei que é você a me abraçar!

Estrutura da Língua Iatê (Algumas Palavras)

(Marcelo Lapenda, IX.2005)


Neste ano de 2005, quando se completam 40 anos da conclusão e entrega dos originais deste trabalho pioneiro às oficinas gráficas da então denominada Imprensa Universitária, bem como estaríamos comemorando o 80º aniversário do seu autor, vem a Editora Universitária reeditá-lo para, dentre a programação do 4º Encontro de Línguas e Culturas Macro-Jê, torná-lo acessível a novas gerações de estudiosos das línguas indígenas.
Para alguns, esta nova edição seria um desastre, tendo em vista a atual condição de raridade do trabalho, de acordo com vários catálogos, afinal cairia o seu valor no mercado livreiro. Até mesmo através da internet localizamos o oferecimento de um exemplar, na França, sob tal classificação.
Mas, antes de um possível valor comercial, maior sempre foi a vocação pelo ensinamento, pela transmissão do conhecimento a tantas e tantas gerações que o motivava. Assim, tenho a certeza de que ele entenderá de maior valia esta nova edição, infelizmente não atualizada ou ampliada, como seria do seu desejo, mas, ao menos, com algumas das correções gráficas por ele detectadas.
No já longínquo 6 de dezembro de 1965, quando da conclusão e entrega para publicação do livro e, também, seu 40º aniversário, foi da sua vontade agradecer àqueles que a tornariam possível. Hoje, não mais estando, como matéria, entre nós, ouso em seu nome acrescentar àquele elenco a sua ex-aluna e colega do Departamento de Letras, e atual diretora da Editora Universitária, Gilda Lins de Araújo, por, antes de tudo, trazer à lembrança e às novas gerações um longo e árduo trabalho de pesquisa por ele realizado.
Depois de traçadas estas palavras, reconheço que nunca chegariam a uma apresentação do trabalho, a qual, aliás, se torna por demais desnecessária diante do prefácio, de uma pessoa que, como o autor, tinha a modéstia em seus atos, não havendo sido escolhido para tal por uma mera ação entre amigos ou compadres, mas pela longa jornada que os unia e pelo estímulo dado.
E, a partir do estímulo a novas perspectivas que então se abriam, uma longa caminhada foi empreendida e os obstáculos foram sendo superados.
De início, um sonho; nele o caminho a ser percorrido.
Mesmo sem o auxílio das novas e atuais opções tecnológicas, e veja-se que, mesmo à época, teve a seu dispor equipamentos rudimentares e de parcos recursos, procurou semear uma idéia, que veio a colher depois de decorridos mais de dez anos, entre atividades de campo, na aldeia e com a visita de integrantes da tribo a sua casa, ou mesmo a acompanhá-lo no seu dia-a-dia.
Para os novos estudiosos, este trabalho pode até vir a parecer primário, diante dos grandes avanços para a pesquisa de uma língua, seja em termos tecnológicos, seja em termos econômicos.
Mas, há cinqüenta anos atrás, não existia em que se pegar para o trabalho, pois ninguém havia empreendido igual empreitada, da descoberta da língua dos índios fulniô. Hoje, tais esforços são desnecessários, pois aqui se apresenta o ponto de partida para qualquer nova caminhada.
Aliás, os verdadeiros pesquisadores, lingüistas ou não, sempre souberam reconhecer tais méritos e, até por essa razão, um livro publicado há tanto tempo, por uma imprensa universitária nordestina, logrou atingir os centros maiores, seja no âmbito nacional ou internacional e, por fim, diante da lacuna até hoje não preenchida, ser valorizada ainda mais com esta nova edição, através da mesma editora que, há 25 anos, o teve na presidência do então Conselho Editorial, em vista da sua nomeação para a vice-reitoria da Universidade, para a qual dedicou quase a metade da sua vida, nas atividades de magistério, pesquisa e administração.

Editora universitária reedita “Estrutura da Língua Iatê”

01/11/2005

Quarenta anos após sua primeira edição, a Edufpe lança mais uma vez “Estrutura da Língua Iatê” do ex-reitor e professor Geraldo Lapenda, na próxima quinta-feira (3), às 15h no auditório do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE. Na ocasião será realizada homenagem ao mestre Geraldo Lapenda no ano em que o mesmo completaria seus 80 anos.
Reedição da obra de Geraldo Lapenda, publicada primeiramente em 1965, pela então denominada Imprensa Universitária, essa segunda edição torna acessível a novas gerações de estudiosos das línguas indígenas o estudo pioneiro sobre a língua Iate dos índios Fulniô de Pernambuco, onde o autor apresenta diversos aspectos da língua, como as formas verbais e os sistemas articulatórios das vogais e consoantes.
04/11/2005
Seminário homenageia professores
A abertura do IV Seminário Internacional de Língua Macro-Jê, patrocinado pela UFPE, no início de novembro, foi marcado pelo lançamento da 2ª edição de A Estrutura da Língua Iatê, do professor e ex-reitor Geraldo Calábria Lapenda, falecido no ano passado.
O livro de Lapenda, esgotado há décadas e republicado em meio às comemorações dos 50 anos da Editora Universitária da UFPE, ainda é considerado de grande interesse, tendo sido pioneiro à época de sua primeira edição (1965). Esforço enorme rumo à compreensão de uma língua que o autor considerava "bela, suave e cantante", a obra está muito bem reeditada, com textos introdutórios e elogiosos de vários autores, inclusive do reitor Amaro Lins.




Estrutura da Língua Iatê (falada pelos índios Fulniô em Pernambuco)
(Marcelo Lapenda)
A Editora Universitária, inicialmente visando a comemoração do seu 50º Aniversário, decidiu republicar diversas obras de seu catálogo, dentre as quais o livro de papai - ESTRUTURA DA LÍNGUA IATÊ (falada pelos índios Fulniô de Pernambuco).
Com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil, foi possibilitado tal empreendimento.
Bem, nada é por acaso, já disse certa vez, mais precisamente na orção que li na missa de 7º dia, e o lançamento ocorreu durante o IV Encontro de Línguas e Culturas Macro-Jê, realizado em Recife, ocasião em que foi prestada uma homenagem póstuma, sendo saudado pelos Profs. Francisco Gomes de Matos e Aryon Rodrigues (03.11.2005).
Se para a Editora aquele evento fazia parte das suas comemorações, para nós, da família, seria mais.
Para o livro, os 40 Anos da entrega dos originais para a sua primeira edição; para papai, uma homenagem, também, pelos seus 80 Anos, que celebraremos no dia 06 de dezembro de 2005.

Lapenda: trajetória de sucesso

INCampus / Boletim Informativo da UFPE

JOSÉ CARLOS TARGINO
Publicado em 02.2005

Ex-reitor da UFPE, Geraldo Lapenda foi um grande filólogo. Aprendeu sete idiomas, além de elaborar uma gramática na língua dos índios fulni-ô.
“Era um homem de bem. Era humilde e bom. E, por acréscimo, ainda sabia vários idiomas.” Com essas palavras, o professor de Direito José Luiz Delgado parece ter definido de maneira exemplar o caráter e a competência profissional de Geraldo Lapenda, professor apo-sentado do Departamento de Letras e ex-reitor da Universidade, falecido em dezembro do ano passado.
Mas Lapenda era mais do que isso. Fluente em várias línguas, como espanhol, francês, inglês, italiano, latim, grego e tupi, ainda se meteu numa empreitada digna de registro: aprendeu o iathê, língua dos índios fulni-ô, e descreveu-lhe a estrutura, elaborando uma gramática que ficou famosa.
Aryon Rodrigues, professor da Universidade de Brasília, era um dos admiradores dessa gramática, que Lapenda preparou depois de um longo e paciente aprendizado da língua com um índio fulni-ô. “Ele era, profissionalmente, um filólogo, e não um lin-güista. Por isso, cresce de importância o seu mérito”, reconhece Aryon. De fato, o professor era, sobretudo, um apaixonado pela cultura clássica, que conhecia profundamente.“Ensinou-me latim de maneira muito interessante, através do texto das Metamorfoses de Ovídio”, diz a professora Nelly Carvalho, do Departamento de Letras. “Tinha uma didática perfeita, que tentei imitar em vão”, elogia.
CONVIVÊNCIA – “Guardo dele a melhor lembrança, como pessoa, dono de vasta cultura clássica e de uma simplicidade franciscana”, recorda o jornalista Juracy Andrade, fundador da Assessoria de Comunicação da UFPE e que com ele conviveu, por ocasião do seu reitorado. Era fácil abordar Lapenda, pedir-lhe explicação para algum ponto complexo, quer fosse em filosofia, literatura clássica ou línguas.
Nessas ocasiões, ele costumava conduzir a pessoa para um lugar reservado e ali, longe do barulho do mundo, dar uma verdadeira aula sobre o assunto.
“Amizade, sinceridade e lealdade foram sempre suas companheiras”, assegura Ana Lúcia Lapenda, sua filha e também professora de Letras. Lapenda tinha forte formação religiosa, tendo sido aluno de Teologia na Universidade Gregoriana, em Roma. Entendeu não ter havido, de modo efetivo, a vocação”, explica o advogado e pro-fessor da UFPE Palhares Moreira Reis.
Lapenda então voltou ao Brasil e deu início à carreira no magistério, ensinando, inicialmente, nos mais diversos colégios recifenses, inclusive o então requisitado Ginásio Pernambucano. “Um dia, me expulsou merecidamente da sala de aula, mas era um grande mestre”, lembra José Carlos Poroca, executivo, advogado e cronista, que foi seu aluno no Pernambucano.
BIOGRAFIA - Geraldo Calábria Lapenda era natural de Nazaré da Mata, Zona da Mata pernambucana, onde nasceu em 1925. Além de licenciatura em Letras Neolatinas, fez também bacharelado em Direito.
Tinha pós-graduação em Teologia, embora incompleta, na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), em letras (doutorado) e em lingüística (docência livre). Lapenda também foi vice-reitor da UFPE e assumiu a Reitoria por quase todo o ano de 1983, quando do falecimento do titular, Geraldo Lafayette.
Foi diretor do Ginásio Pernambucano, em 1961, e chefe do Departamento de Letras da Fafire no período de 1975 a 1976. Também comandou o Departamento de Letras da UFPE entre 1976 e 1980.
Com uma vasta produção, Lapenda ministrou palestras, publicou artigos em jornais e revistas e livros, sempre sobre questões relevantes das línguas.

O que é aprender





NELLY CARVALHO
(Professora do Deptº de Letras do UFPE - nellycar@terra. com. br)
Publicado em 11.02.2005

Segundo o dicionário, aprender é uma variante de apreender. Ambos significam assimilar mentalmente, compreender com profundidade, captar, adquirir conhecimento a partir de estudo ou de prática, de uma língua de uma técnica, de uma arte. Ë um processo que se dá por convivência com o objeto a ser apreendido e que modifica o aprendiz fazendo-o crescer como pessoa, quando o tema do aprendizado é relevante e positivo.
Foram reflexões que nos vieram à mente ao levar os netos para ver a exposição dos chamados Quadrões de Maurício de Souza no IRB.
Todas aquelas crianças, vindas das mais diversas escolas e condições sociais, olhando e comparando o original e a cópia, com seus personagens favoritos, já conhecidos nos quadrinhos, sofrem a influência da arte e se deixam marcar pelo bom gosto. As explicações ao lado conduzem a compreensão do que seja o motivo da pintura. e nenhum daqueles garotos esquecerá a experiência visual que levarão pela vida afora,
Quando viajamos pela Europa, ficamos encantados por ver os colegiais, visitando museus e coleções em visitas guiadas por professores. Compreendemos então o motivo de terem os europeus um nível e um interesse cultural muito superior ao nosso. É na infância que se forma o gosto artístico e se desperta interesse pela cultura pela história do seu país. E com isso se forma o cidadão, com consciência de suas raízes.
Agora, estamos tendo aqui esta oportunidade com uma instituição como o IRB que abre suas portas gratuitamente para instruir os cidadãos de hoje e de amanhã
E não é só a arte da pintura A edificação é uma lição de bom gosto e história. O castelo, com sua ponte levadiça, num belo parque verde, às margens de um lago de conto de fadas, onde deslizam cisnes brancos e negros, ensina às crianças que existe um mundo diferente do frenético e vertical em que vivem empoleirados.
Lembro o meu deslumbramento, quando ainda jovem, na Espanha, entrei no saguão de um castelo feudal, onde vi pela primeira vez armaduras de cavaleiros, com suas lanças e espadas. Tanto estudara sobre os cavaleiros medievais, nos textos do espanhol antigo, traduzindo El Cantar de Mio Cid e os romanceros, e do francês arcaico, as canções de Gesta e a Chanson de Roland, solidária com os sofrimentos de Carlos Magno pela morte injusta de seu sobrinho, que, me ver nesse ambiente, trouxe a emoção da certeza de sua existência remota. E agora, qualquer um que quiser visitar tudo isso é só ir até à Várzea e conhecer um mundo diferente, belo e real, embora remoto
Com a generosidade dos grandes senhores feudais, Ricardo Brennand abre seus domínios e permite o acesso a um bem cultural que creio ser o único no Brasil, contribuindo dessa forma para o aprendizado de uma comunidade e para o desenvolvimento dos saberes artístico e histórico.

O que é aprender ? É conviver com o belo, o significativo, o diferente, guardando-o como tesouro em nosso espírito.
Falar em aprender é lembrar os mestres. Assim, queria homenagear, agora, um grande mestre que se foi junto com o ano de 2004: professor Geraldo Lapenda.
Profundo conhecedor de línguas, ensinou-nos Latim e Italiano, no curso de Graduação em Letras Neo-latinas. Tinha uma didática tão perfeita que durante toda a vida, como professora de língua portuguesa, tentei imitá-lo, em vão. Ensinou-nos italiano, conseguindo que, em dois anos, já falássemos bem e transformou o estudo do Latim em algo interessante, através do texto das Metamorfoses de Ovídio, uma lenda explicativa das origens do mundo. Sabia muito e sabia mais : espanhol, francês, alemão, inglês, tupi e foi quem primeiro descreveu a língua dos índios fulniô de Águas Belas, o iathê. Tanto no Mestrado, como no Doutorado, ensinou Fonética e Fonologia, que são o nó da Lingüística e conseguia ser entendido, sabia fazer-nos aprender.
Mestres como Lapenda já se fazem raros pelo saber, pela grandeza de espírito e pela simplicidade.

Juracy Andrade - editorial







JURACY ANDRADE
(Jornalista - juracy@jc.com.br)
Publicado em 29.01.2005

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Desejo ainda registrar que, quando estava viajando por aí, fiquei sabendo do falecimento do professor Geraldo Lapenda. A sua família, minha solidariedade. Guardo dele a melhor lembrança, como pessoa humana, dono de vasta cultura clássica (como eu, era ex-aluno do Seminário de Olinda e da Universidade Gregoriana) e também de uma simplicidade franciscana. Eu estava sendo reintegrado à UFPE, via Lei da Anistia. O reitor era o prof. Geraldo Lafayette, que sofria uma campanha implacável de um jornal da praça, alimentada por Gilberto Freyre, que tivera um pleito recusado pela reitoria (um replay do caso João Alfredo, que o mestre havia conseguido tirar da universidade no embalo dos expurgos do golpe de 1964). Lafayette terminou morrendo, não vítima da campanha de desestabilização, mas por infecção hospitalar. Lapenda, vice-reitor, o substituiu por uns dois anos, sem perder aquela sua simplicidade, sem a ‘magnífica pose’ característica. Como eu coordenava a Assessoria de Comunicação Social, tive muito contato com ele e aprendi a admirá-lo, a lhe querer bem.

Geraldo Lapenda




Palhares Moreira Reis
(Advogado e Professor Universitário Salesiano)
Publicado em 13.01.2005

Pouco depois de ter completado 79 anos, desapareceu de nosso convívio o professor Geraldo Calábria Lapenda, que durante muitos anos foi formador de estudantes e estudiosos de línguas em diversos estabelecimentos de ensino em Pernambuco.
Geraldo Lapenda, oriundo de Nazaré da Mata, neste Estado, menino ainda foi estudar no Rio de Janeiro, no seminário católico então dirigido por seu tio e, em seguida, prosseguiu seus estudos visando o sacerdócio, em Roma.
Quase no fim dos seus cursos, perto da ordenação, entendeu não ter havido, de modo efetivo, a vocação, o chamamento para o sacerdócio, voltando para o Brasil. Se tivesse continuado na trilha sacerdotal, possivelmente, teria sido bispo, do mesmo modo que D. José Lamartine, seu colega de turma.
Ao retornar ao Recife, foi convidado para ser professor assistente de Língua e Literatura Italiana, na Faculdade de Filosofia de Pernambuco da Universidade do Recife, no inicio dos anos 50, época em que eram estudantes e diretorianos diversas figuras que se destacavam naquela faculdade e que, depois, igualmente se destacaram na vida acadêmica e profissional no Recife: Joaquim Correia, que foi Presidente local da OAB, José Adolfo Pereira Neves, hoje falecido, o autor destas linhas e Maria Clementina Rego Barros, professores da UFPE, Nilton Siqueira, procurador-geral também da UFPE, dentre outros. Com Maria Clementina casou-se Lapenda pouco depois, e dessa união nasceram três filhos, Ana Lúcia, igualmente professora de Letras na UFPE, como os pais, Marcos José, engenheiro da Chesf e Marcelo, advogado, hoje no Tribunal Regional Federal.
Geraldo Lapenda era fluente em inúmeros idiomas, não apenas os tradicionais europeus, como o português, espanhol, francês e inglês, dos nossos cursos ginasiais e colegiais, como igualmente o italiano, o latim, o grego e o tupi. Daí ter sido professor de muitas dessas línguas, tendo o seu mérito ressaltado quando da posse como professor num dos cargos, pelo seu colega Lucilo Varejão Filho, num discurso intitulado "Para que serve um professor de grego?"
Suas teses de concurso - além de catedrático do "Ginásio Pernambucano" era mestre, doutor e docente livre na Universidade Federal - sempre versaram sobre temas inexplorados, como a "Tendência do latim ao analitismo", e a "Estrutura da língua iathê", onde desbrava os íntimos da língua dos índios pernambucanos. Afora outros trabalhos, igualmente relevantes, que seria fastidioso relacionar. Igualmente era bacharel em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco.
Na Universidade Federal de Pernambuco, no fim dos anos 70 exercia a coordenação do curso de Letras e, por eleição, tinha assento no Conselho Universitário e no Colégio Eleitoral para a escolha de reitor e de vice-reitor. No dia em que haveria a eleição da lista para substitutos do reitor Paulo Maciel e seu vice, encabeçou a lista para reitor o prof. Geraldo Lafayette Bezerra, que foi conduzido pelo ato presidencial. Para vice-reitor, foi Geraldo Lapenda surpreendido com a inclusão do seu nome na lista sêxtupla, ao lado de outros docentes, de modo a alterar a composição que, se pensava, teria a benesse ministerial. Qual foi a surpresa de todos - e maior ainda a dele mesmo - quando o ministro Eduardo Portella escolheu o nome do seu antigo mestre para aquele cargo. A comunicação telefônica de que tinha sido nomeado pelo presidente foi, inicialmente, por ele recebida como sendo um "trote", porém logo confirmada pela publicação do ato no Diário Oficial.
Como vice-reitor participou de inúmeras reuniões dos Conselhos de Reitores e de outros órgãos superiores, e, mais tarde, como falecimento do reitor Lafayette, assumiu o Reitorado e promoveu a eleição e encabeçou a lista da qual sairia a escolha do reitor George Browne Rego. O autor testemunhou, no aeroporto dos Guararapes o diálogo entre a ministra Esther Ferraz e Geraldo Lapenda, quando este, instado para aceitar o cargo, declinou expressamente da possível escolha presidencial.
Nossos laços de amizade e de coleguismo profissional se ampliaram com casamento entre seu filho Marcos com minha filha Sophia, havendo, dos seus 5 netos, dois que nos são comuns. Poucos recordam, salvo os mais íntimos, que Geraldo Lapenda cantava, e bem, músicas populares, em português e em italiano, e por vezes animava viagens de ônibus, usando o microfone do guia para cantar "a capella" para nossa alegria, como naquelas dos "Amigos do Porto", em Portugal. Faleceu no último dia 19 de dezembro. Mesmo tendo se afastado do sacerdócio, continuava firme na sua fé e na sua crença na vida pós-morte, onde estará, seguramente, recebendo os merecidos prêmios e velando pelos seus e seus amigos que ainda estão por aqui.

Lapenda e os velhos gramáticos



JOSÉ LUIZ DELGADO
(professor universitário)
Publicado em 17.01.2005

Era um homem de bem. Era humilde e bom. E, por acréscimo, como ainda sabia o idioma! Fazia parte de uma geração admirável, não apenas de professores de português, mas de exímios conhecedores da língua, um José Lourenço, um José Brasileiro Vilanova, um Adauto Pontes. Esse correto e admirável Geraldo Lapenda, que há pouco perdemos, “misto de retidão, equilíbrio, energia e, paradoxalmente, brandura” (declarou Lucilo Varejão Filho ao saudá-lo, na posse como vice-reitor da Universidade Federal), sabia realmente o português. Não digo que sabia “as normas da língua culta” porque detesto esse eufemismo ridículo, só para evitar o nome “gramática”, que a uns tantos parece repugnante, e, pior, para evitar a noção de que existiria um “certo” e um “errado” na língua, de sorte a se justificarem então todos os usos, desde os da linguagem coloquial até os simplesmente analfabetos. Lapenda sabia português, sabia profundamente, sabia exaustivamente, sabia muito mais do que deve saber qualquer um que tenha um mínimo de zelo pela própria língua e um mínimo, afinal, de patriotismo. E sabia português assim porque, em primeiro lugar, sabia latim, e com igual profundidade.
Tive o privilégio de haver sido seu aluno - é verdade que apenas um ano, o único em que estudei no Ginásio Pernambucano, que naquele tempo era praticamente uma universidade, tais os mestres que ali ensinavam (lá foram meus professores, além de Lapenda, uma Bernadete Pedrosa, um Lucilo Varejão, um Adauto Pontes: como pôde, depois, o ensino público decair tanto??). Reencontrei-o, passados vários anos, na Reitoria e na Universidade e o tive sempre como meu professor permanente. Várias vezes o incomodei, em consultas para tirar dúvidas, para aprender mais as riquezas, as potencialidades, os meandros da língua - não complicada, mas complexa e rica, que precisa de devotos, não de negadores.
Não esqueço que uma vez Lapenda - nessa simplicidade que é própria dos grandes homens, que amam mais a verdade do que o respeito humano - tomou a iniciativa de me chamar a um canto, numa sala da Reitoria, para me apontar um erro num escrito meu. Era uma frase que eu escrevera embora cheio de dúvidas: procurara a solução nalgumas gramáticas e, nada encontrando explicitamente, terminei adotando a norma geral que, naquele caso, sentia não ser adequada e, como Lapenda me mostrou, era mesmo inaplicável. E assim Lapenda espontaneamente, generosamente, com absoluta simplicidade, me corrigiu e me deu a lição exata, preciosa, inesquecível.
Naquela bonita saudação, em que propunha a indispensável pergunta: “Para que serve um professor de grego?”, Lucilo Varejão Filho elogia-va Lapenda como “o melhor exemplo que conheço da utilidade da cultura humanística na formação dos cidadãos”. Conhecendo profundamente o grego e o latim (além de outras línguas, e até da própria iatê dos nossos fulniôs, sobre a qual escreveu trabalho inigualável), Geraldo Lapenda bem pode, como advogava Lucilo, ser evidência dos excelentes frutos de um assíduo contacto com “o espírito das velhas civilizações clássicas”. Como é ilustrativo, também, do excepcional nível da formação haurida nos velhos seminários - quantos intelectuais de altíssimo nível não estudaram, durante largo tempo de sua mocidade, nos seminários de antanho, desistindo depois da vocação sacerdotal? E é, ainda, para mim, o modelo do cultor da nossa língua portuguesa. Porque, como Manuel Bandeira pedia aos jovens poetas (que lhe mostrassem, antes de suas produções modernistas, o caderno de sonetos que tivessem composto), ensinando, assim, que a liberdade só é possível depois da disciplina e da técnica, - do mesmo modo também o escritor só se pode atrever a certas liberalidades com o idioma se, primeiro, dominar adequadamente as suas regras tradicionais. Saber Geraldo Lapenda vivo e lúcido, ainda que eu não o encontrasse freqüentemente, era para mim a tranqüilidade de uma absoluta segurança. Eu tinha a quem recorrer toda vez que me assaltasse uma dúvida maior de português de que não conseguisse dar conta com os compêndios de gramática.

Morre ex-reitor da UFPE

20.12.2004
Enterro será às 15h Será sepultado logo mais, às 15h, no Cemitério de Santo Amaro, o corpo do ex-reitor da UFPE Geraldo Calábria Lapenda, falecido ontem. O velório está sendo realizado na Capela do Hospital Oswaldo Cruz. Geraldo Lapenda, que tinha 79 anos, exerceu a reitoria da UFPE de abril a novembro de 1983, assumindo o mandato após a morte do reitor Geraldo Lafayette Bezerra.
Lapenda foi professor Titular do Departamento de Letras da UFPE, tendo se destacado pelo seu pioneirismo no estudo da língua indígena Fulniô. Professor de Lingüística, aposentou-se em 1990, após 40 anos de docência na Universidade Federal de Pernambuco.
(Fonte: UFPE)

MAIS DO QUE UM RÉQUIEM!

Em 19 de dezembro de 2004, Papai morreu.
Morreu? Não, isso é muito forte e duro de se dizer, principalmente quando se fala de Papai, tão presente em nossas vidas e a morte seria um fim muito brusco.
Preferiria dizer, então: Encantou-se! Como, se encantado ele sempre o foi?
Ah, ele tomou para si os versos de um samba-enredo de carnavais passados:

Vou-me embora, vou-me embora,
Eu aqui volto mais não,
Vou morar no
infinito
E virar constelação.


Foi viajar, para além do infinito, mas não estará sozinho lá: reencontrou seus pais; os irmãos, que antes partiram; grandes amigos; e, dessa constelação fica a nos guiar, tal qual a Estrela de Belém guiou os Reis Magos até o Menino Jesus.
Aliás, há algo em comum entre eles, pois Papai também nasceu em Nazaré, só que a “da Mata”, aqui de Pernambuco; igualmente em dezembro, apenas com uma diferença: enquanto o Menino Jesus no dia 25, ele no ano de (19)25.
Vai ver foi por isso que estudou em Seminário, e por pouco não seguia a carreira eclesiástica, a qual viu não ser a sua missão na Terra, mas sim o sacerdócio do magistério, levando o ensinamento aos demais.
Mas, voltando ao assunto, isso aqui tão-somente seria uma pequena nota introdutória, uma apresentação, da sua passagem entre nós, para tornar público um pouco de sua vida, principalmente agora que ela é eterna.
Dizem que falar dos mortos é tarefa fácil já que, depois de morto, todo mundo é santo.
Com Papai, não! Tal ditado não se aplica a ele.
Não é apenas porque se encantou que nada pesa sobre ele, mas a sua própria vida demonstra que abriu um caminho que todos podem, e devem, seguir. Por isso é fácil falar sobre ele.
Basta ver as homenagens que recebeu, enquanto entre nós se encontrava e também depois.
E esta a razão deste texto, um abre-alas para um resumido histórico de sua vida e reunir textos sobre ele. Enfim, apesar de não o necessitar, apresentá-lo.
Papai era uma pessoa realmente plural. Não só era professor de línguas, as mais inesperadas, inclusive, tanto que inúmeras vezes foi “convidado” a participar de programas de televisão como parte de gincanas estudantis.
Quem iria saber que também haveria de ter se apresentado na televisão para cantar?
Seus dotes artísticos também enveredam para a poesia, apesar de, como professor, quando possível, sempre haver procurado se esquivar do ensino das literaturas.
Mas, tem as artes plásticas. Não deixou quadros ou esculturas, contudo, apesar de não alcançar as proezas de Geppeto, construía alguns dos nossos brinquedos. Acho que dentro dele havia um pouco daquilo que existia em Leonardo da Vinci (ou seria do Prof. Pardal?), pois adorava inventar coisas para facilitar o dia-a-dia. E era cada engenhoca!
Serviço de pedreiro, pintor, encanador e eletricista também era com ele. Aliás, muito engenheiro poderia ter tido aulas práticas com ele, que chegou a ensinar a um pedreiro como assentar – da forma correta – as lajes do piso do oitão da casa onde morávamos.
Agora, o difícil mesmo era andar com ele na rua, principalmente quando se tinha pressa. A cada instante alguém o parava, inicialmente para um simples gesto de cumprimento, mas, ao final, uma longa conversa.
Apesar de detestar fazer discursos, não conseguia falar pouco. Acho que era para compensar.
Engraçado, não gostava de falar em público, fazendo discursos, mas como amava dar aulas.
E aqui o sacerdócio que seguiu: ser professor! De várias gerações.
Dizia ele que já era bisavô, pelo menos das alunas do Colégio das Damas, já que em muitas turmas havia alunas cujas mães e avós também tinham sido suas alunas naquele colégio. Pudera, passou quase trinta anos ensinando lá, desde 1º de março de 1953 até, quando se aposentou, em maio de 1984.
Oportuno esclarecer que apenas após casar-se é que poderia ensinar naquele colégio, antes exclusivamente destinado ao alunado feminino. Solteiro ali, só o capelão!
Como se vê, este é o início de uma história sem fim, cujos capítulos virão, aos poucos, se juntando a essa pequena introdução.

Curriculum Vitae

Nasceu na então denominada Nazareth de Pernambuco, mais tarde Nazaré-da-Mata, cidade da Zona da Mata do Estado de Pernambuco, no dia 06 de dezembro de 1925.
Filho de José Spinelli Lapenda e Anna Calábria Lapenda, era o quinto de sete irmãos: Feliciano (Padre Lapendinha), José e Maria da Conceição (Ceça), já falecidos, e Pascoal (Lito), Francisco de Assis e Maria Ângela.
Após seus estudos menores em Nazaré da Mata, foi para o Rio de Janeiro, aos 11 anos de idade, para prosseguir seus estudos no Seminário Arquidiocesano de São José, no qual era Reitor o seu tio, o Mons. Virgílio Lapenda. Ali, além de seus estudos regulares em Humanidades (1937/43), fez o Curso de Filosofia (1944/46), sendo um dos escolhidos para cursar em Roma a Pontificia Universitas Gregoriana (Facultas Theologica), onde faria o Curso de Teologia no Pontificii Colegii Pii Brasiliensis, ali ingressando em novembro de 1946.Ainda no Seminário, no Rio de Janeiro, fez especialização em Língua Grega, em Grego-Bíblico e Língua Hebraica. Não chegou a terminar o Curso de Teologia, após o qual se ordenaria, retornando ao Brasil em março de 1948. Inicialmente ao Rio de Janeiro e, depois, forte a saudade de sua família, ao Recife.
Seu sonho era a advocacia, mas os anos de seminário o conduziriam, não por sua vontade, mas pela legislação educacional vigente, à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Manoel da Nóbrega”, da Universidade Católica de Pernambuco, onde se graduou no bacharelado (1949/51) e na licenciatura (1952) em Letras Neo-Latinas. Tinha início sua vida de magistério e, como professor da recém-criada Faculdade de Filosofia de Pernambuco, que futuramente integraria a Universidade do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco, veio a conhecer a sua esposa, Maria Clementina Barros Lapenda, com quem se casou em 20 de dezembro de 1952, passando juntos 52 anos, completados no dia do seu sepultamento. Dessa união, três filhos: Ana Lúcia, Marcos José e Marcelo.Conseguiu, ainda, realizar o seu antigo sonho, graduando-se em Direito; mas pouco advogou, tão-somente durante dois anos. O “vício” do magistério já o havia tomado.
Aqui um pequeno parêntese.

À época, havia apenas a Faculdade de Direito do Recife, e por lá pretendia se graduar. Contudo, por ser professor da mesma Universidade (Faculdade de Filosofia) foi-lhe negada a matrícula.O então Reitor não aceitava que um professor fosse, ao mesmo tempo, aluno da Universidade. E não houve quem o fizesse voltar atrás.Com isso, foi adiando seu sonho, à espera de superar o empecilho ou que outra instituição superior oferecesse o Curso de Direito, o que só veio a ocorrer mais tarde, através da Universidade Católica de Pernambuco.Mas, como sua jornada diária já era grande, adiou mais um pouco o sonho, só vindo a iniciar o curso em 1968, concluindo-o em 1972.


Em 1966, ganhou uma bolsa para, no Uruguai, fazer o Curso de Tipologia Lingüística, no Instituto Latino-Americano de Lingüística.

Como sempre foi muito ligado à família, e com a longa duração do curso (três meses), solicitou que o valor destinado à passagem aérea, que contemplaria apenas ele, fosse-lhe dado em espécie.Assim, custeou as despesas da viagem de carro, em uma Rural Willys, pela ainda em construção malha rodoviária, levando toda a sua família junto.Além da aventura em si, atravessando rio onde não existia ainda a ponte, esperando a boiada passar, descobrindo cidades que sua própria população nem sabia estar no mapa; uma verdadeira aula de geografia, história e culturas regionais, in loco, que ele nunca se furtou a nos ensinar.

Doutorou-se em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, obtendo o título de Docente-Livre em Lingüística, mediante aprovação em concurso de títulos e provas, com a defesa de sua tese Aspectos Fonéticos do Falar Nordestino (1977).

Aliás, além do estudo da linguagem humana, dedicava-se, como era de se esperar, ao estudo-ensino das mais diversas línguas, cujo pendor remonta a sua infância.
Ainda criança, em Nazaré da Mata, morava perto de uma paraguaia que sabia o guarani e o foi ensinando os sons daquela língua. Depois, já no seminário, vieram o latim, o grego, o hebraico...
Em Roma, em contato com colegas das mais diversas nacionalidades, e sua enorme facilidade de aprender línguas, não se tornou difícil o aprendizado de outras línguas. Daí porque não é de estranhar sua fluência, muitas vezes até confundido com nativos, em inglês, espanhol, italiano (teve que provar, pelo passaporte, ser estrangeiro em uma das suas viagens à Itália) e francês; sem contar o aramaico e o sânscrito. E tantas outras línguas que não tinha o vocabulário, a seu entender, suficiente, mas era capaz de ler e até escrever.
Não era de se estranhar, então, o ensino, além do portugês, de línguas (latim, espanhol, francês, inglês) em diversos colégios do Recife, tais como o Colégio Israelita de Pernambuco, Colégio Leão XIII, Colégio Salesiano do Sagrado Coração, Colégio das Damas da Instrução Cristã, Instituto de Educação de Pernambuco e Colégio Santa Maria.Ainda no denominado ensino médio, o Ginásio Pernambucano (Colégio Estadual de Pernambuco), para o qual, após aprovação em concurso de títulos e provas (defendendo a tese Tendência do Latim ao Analitismo), foi nomeado para a Cátedra de Latim, em 1957, disciplina que lecionou até a sua retirada da grade curricular na década de 1970. Igualmente foi professor de português e inglês, bem como Vice-Diretor (1956/61), Diretor (1961), Membro da Congregação e do Conselho Técnico-Administrativo (1968/74), deixando seus quadros tão-somente em 1983, ao se aposentar.
No ensino superior, foi fundador do Curso de Letras da Faculdade de Filosofia de Pernambuco da Universidade do Recife (atual Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco) e era Professor Titular de Língua e Literatura Grega. Ali ministrou aula nas seguintes disciplinas: língua e literatura italiana (para a qual foi nomeado Professor Assistente - 1950/55), língua e literatura latina, língua e literatura grega, língua portuguesa (no Ciclo Geral do Curso de Medicina – 1973/76), bem como indo-europeu (Cursos Extraordinários promovidos pelo Diretório Acadêmico da então denominada Faculdade de Filosofia de Pernambuco – 1954/55), métrica greco-latina (Curso de Especialização em Teoria da Literatura – 1973), fonética geral e análise fonológica (Curso de Mestrado em Letras) e filologia românica histórica (Curso de Doutorado em Letras). Ali foi Chefe do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (1976/78), sendo reeleito por unanimidade (1978/1980), e Vice-Reitor da Universidade Federal de Pernambuco (1980/1984), havendo assumido o exercício do cargo de Reitor, em março de 1983, com o afastamento do titular por motivo de doença e posterior falecimento, até a posse no novo Reitor, em novembro do mesmo ano.Na Faculdade de Filosofia do Recife (FAFIRE), no seu Curso de Letras (1972/80), lecionou língua latina, língua portuguesa, filologia românica, língua e literatura italiana e língua inglesa e, no seu Curso de Geografia, língua tupi.
Na Universidade Católica de Pernambuco lecionou língua e literatura italiana (1953/58).Finalmente, lecionou métrica greco-latina no Seminário Arquidiocesano de Olinda e Recife (1958/60).
No tocante à Universidade, uma pequena pausa para um longo comentário.
Sempre avesso aos altos cargos, preferindo sempre a sala de aula e a pesquisa, eis que chega à Reitoria da Universidade Federal de Pernambuco. Por nomeação, depois de eleito para compor lista sêxtupla – para constar, diziam – o cargo de Vice-Reitor e, pela fatalidade do falecimento de Geraldo Lafayette, uma interinidade de quase um ano à frente da Reitoria.
Mas vejamos. Entrara na lista, como também ocorrera na eleição para Vice-Reitor em 1971, tão-somente para a completar. Era o sexto e último nome, só havendo aceitado por insistência do então Reitor, seu amigo de longas datas, Geraldo Lafayette.
Após uma longa demora de quase seis meses, recebe-se a notícia de haver, finalmente, saído a nomeação de um daqueles já esperados, chegando-se inclusive a ir cumprimentá-lo.
Isso em uma sexta-feira, final da tarde.
O Recife receberia, na segunda-feira seguinte (7 de julho de 1980) a visita de S.S. o Papa João Paulo II e, por tal razão, pode-se dizer que a cidade parou – não havendo expediente na Universidade –, deslocando-se a população para os caminhos por onde passaria o “papamóvel”.
Naquele dia, conspirava-se em Brasília e era levado o seu nome para sanção pelo Presidente da República.
Ali, nem no dia seguinte, não houve qualquer comunicação oficial. Primeiro em vista do “feriado”, e depois porque passaria ele todo o dia, inclusive almoçando, na Universidade (vale lembrar que esposa e filha eram professoras, outro filho passava o dia inteiro também em seu local de trabalho e eu, estudante da mesma Universidade). Ou seja, tentava-se desde o dia anterior estabelecer contato com ele e nada.
Disse-nos ele que, após presenciar a passagem do Papa (e é bom lembrar que, como seminarista, estudando em Roma, tivera a oportunidade de ver o então Papa, Pio XII, bem mais de perto), sentira uma paz, algo que não poderia explicar. Quem sabe por haverem sido contemporâneos em Roma?
À noite, chega o telefonema. Do outro lado alguém que se dizia do MEC, comunicando a sua nomeação.
– Brincadeira mais sem graça! Desde a sexta-feira chegara a notícia da nomeação, e outro era o nomeado, para a sua alegria e alívio.
Diria ele.
Mas, brincadeira tem hora, e os desígnios de Deus são certeiros. Vem ao telefone um ex-aluno seu, revelando-se pela sua “alcunha” dos tempos do Colégio Estadual de Pernambuco: era a mais pura verdade!
E o conspirador tinha nome: Heráclito Fortes, hoje Senador pelo
Piauí
.
Logo após, a confirmação pela voz do então Reitor.
E mais, no “Jornal Universitário”, a notícia de sua posse ficou logo abaixo de uma foto do Papa, com os braços estendidos em sua direção, em um gesto de acolhimento!

Além das teses defendidas nos concursos para Cátedra – O Condicional no Sistema Verbal Latino (Cátedra de Latim do Instituto de Educação de Pernambuco, 1952) e Tendência do Latim ao Analitismo (Cátedra de Latim do Colégio Estadual de Pernambuco, 1957) – e para a obtenção do grau de Doutor em Letras (Aspectos Fonéticos do Falar Nordestino, 1977), realizou pesquisa de campo, que empreendera desde 1953, descrevendo a estrutura e a norma da gramática da língua falada pelos índios fulniôs, de Águas Belas (Yati-lyá, na língua fulniô), sertão de Pernambuco, publicando ao final o trabalho Estrutura da Língua Iatê (Ed. Universitária-UFPe, 1968), para o qual despendera quase 10 anos de sua vida, sem que existisse qualquer estudo anterior sobre aquela língua para lhe servir de escopo e contando apenas com o auxílio de parcos e rudimentares equipamentos, o que não o impediu de concluir um trabalho pioneiro e de reconhecida qualidade no meio acadêmico nacional e internacional.Interessante narrar que recebia periodicamente em sua casa a visita dos índios, que muitas vezes o acompanhavam no seu dia-a-dia para um melhor domínio daquela língua.Acredito que daí surgiu sua paixão por acompanhar as evoluções dos “caboclinhos” nos carnavais.Mas não ficou só nessas pesquisas. Ele se dedicou, durante muitos anos, ao estudo do tupi-guarani, que muita gente pensa que é uma única língua, quando na realidade, não se cansava de explicar, trata-se de um grupo lingüístico, formando duas línguas diferentes: o tupi e o guarani, parecidas, entre si, como o espanhol e o português.Suas últimas pesquisas estavam relacionadas às línguas indígenas, sendo as mais recentes: Seis Cartas Tupis do Brasil Holandês, Os Índios Xucurus: resquícios de uma língua, Partículas do Iatê, Os Tupis-Guaranis e os Índios em Pernambuco e Arte da Língua Kariri. Acrescentando-se, ainda, O Timbre das Vogais Médias no Falar Nordestino e O Latim Aplicado à Linguagem Botânica.Outros trabalhos foram publicados: Nomes Compostos da Língua Grega (Faculdade de Filosofia de Pernambuco, 1954) e Vocabulário e Gramática da Língua Iatê, em apêndice ao livro Etnologia Brasileira: fulniô, os últimos tapuias, do Prof. Estêvão Pinto, publicado dentro da coleção “Brasiliana” (vol. 285) da Editora Nacional (1956), e artigos em revistas e jornais: História da Literatura Latina – apreciação da obra do Cônego Pedrosa (1948), Português Comercial – apreciação sobre o trabalho do Prof. Adauto Pontes (1952), Palestra e Ginásio (1953), Morfologia Histórica do Italiano (1954), O Indo-europeu (1954), Os Dialetos da Itália (1956), Etimologia da Palavra “Tupã” (1957), O Substantivo Italiano (1959), O Dialeto Xucuru (1962), Perfil da Língua Iatê (1965), Processos Morfológicos e Mudanças Fonéticas (1977), Meios de Produção e Transmissão dos Sons da Fala na Linguagem Humana (1980), Universidade é Reunião de Valores (1980), Maracutais?!. (1990), Quebra-cabeças (1990) e Pseudo-etimologias (1990).
E o fruto de toda essa produção foi notado, basta ver sua obra citada em vários outros trabalhos.
Igualmente nunca se furtou ao apoio a colegas e amigos na tradução de textos outros para o latim, o grego, o italiano, bem como dessas e outras línguas para o português.Em sua vida profissional, como visto, não esteve parado no tempo, antes um inovador, participando dos primórdios da Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN), na qual chegou a integrar o seu primeiro Conselho Diretor, e fomentando outras atividades de âmbito nacional e local.De se destacar sua participação em inúmeros congressos e seminários, nos quais, entre outras, proferiu as conferências O Papel do Aparelho Fonador na Emissão de Consoantes (1959), A Importância do Estudo da Entonação (1962), A Experiência na Pesquisa de Campo de uma Língua (1968). E ainda acharia um tempinho, apesar dos encargos administrativos, para ministrar a aula inaugural do Curso de Mestrado em Anatomia Patológica da UFPe (1982), dissertando sobre o tema Palavras Gregas na Nomenclatura Médica.